Promotor: Ex.mo Sr. Vítor Manuel Fortunato Xavier Local: Quinta das Carvas- Bragança Ano de Projecto: 2006 Estado: Em Construção
Habitação Unifamiliar Abordagem: Dos sucessivos projectos realizados tendo por base a “habitação unifamiliar” tem resultado uma crescente dificuldade de abordagem do tema, ao contrário do que seria de esperar, em que a repetição do ensaio levaria à realização confiante da prova. As dificuldades tornam-se patentes desde logo ao nível da comunicação, em que aparentemente, ou não, arquitecto e cliente utilizam linguagens diferentes. Numa cultura planetária, em que a globalização reduziu as variações regionais a quase nada, em que a imagem domina pela facilidade de absorção, a palavra escrita e mesmo falada, em que esta se contrai e simplifica até ao impensável nas mensagens de telemóvel e Internet, tudo é absorvido por imagens que apesar de massificantes delas olhamos apenas uma finíssima camada superficial. Discutir a habitação torna-se então um jogo na epiderme do objecto, em que as referências indicadas, quer sejam de cultura vernácula ou académica, porque já se perderam ou porque nunca foram absorvidas, conduzem a um discurso não estruturado porque vazio de qualquer conteúdo capaz de o tornar coerente.
Programa: Entendido na sua componente física, o programa apresentado é relativamente simples e em tudo de acordo com o que na região se entende como programa normal para uma habitação unifamiliar: Informado por um desejo recorrente de que deveria desenvolver-se num único piso cedo se constatou a sua não exequibilidade por um lado, e por outro que tal desejo afinal não existia, pois contemplava a garagem em cave e um aproveitamento de sótão como espaço lúdico. O desenvolvimento de todo o programa num único piso, não exequível pela conjugação da forma do talhão disponível, comprido, mas estreito, com a regra sem sentido do actual PDM de Bragança, limitar a profundidade da empena a 20 metros (empena entendida como a medida da construção na perpendicular à via pública que serve a construção). Só a ignorância (de todos os males certamente o pior deles, já que se desconhece a si própria tanto mais quanto aplicada cegamente) poderá justificar a existência de tal regra. Surgida de uma vontade higienista de garantir iluminação e ventilação no interior das construções, poderá, tal como no passado fazer sentido quando em presença de alinhamentos construtivos contínuos, em que iluminação e ventilação apenas são possíveis em duas fachadas opostas, já que as outras duas são cegas obrigatoriamente, pela existência de outros blocos construídos.
HABITAÇÃO UNIFAMILIAR / CASA / MORADA /LAR / LUGAR Que vontades, desejos e cultura informam a habitação que pretendemos chamar nossa? Nela se jogam, desde logo, dois conceitos dificilmente conciliáveis ou mesmo inconciliáveis: Intimidade e representação social A casa deverá ser o lugar da não exposição da sombra, da penumbra, no limite o regresso ao útero materno. Se da família, ou da tribo, na sua versão inicial, a gruta desempenha esse papel de forma cabal e num mundo em que o homem ainda não perdeu a harmonia com o planeta, a sua Terra-Mãe. Nas duas situações a porta é o lugar, o corte entre o interior e exterior, entre o pessoal (ou familiar) e o público, entre o grupo restrito e o grupo alargado, entre a intimidade e a representação social. Se na gruta os dois mundos se tocavam apenas nesse restrito plano de fronteira da porta, a Arquitectura alargou os planos de contacto ao nível das três dimensões, senão das quatro, quando o próprio interior se pode expor publicamente pelos mais diversos meios de divulgação, de forma voluntária ou involuntária, licita ou ilícita, por exemplo através das câmaras de vigilância em tempo real. Entre os dois valores é avassaladora a importância dada à representação social da “nossa casa” relativamente à intimidade que a mesma nos deve proporcionar. Esta desproporcionalidade é ainda agravada pela incapacidade de operacionalizar um dos conceitos inerentes. A Arquitectura concretiza-se no momento em que o vazio é definido. Quando do espaço tridimensional indefinido e virtualmente infinito se delimita uma parte, criamos um vazio já definido e finito. Entramos no campo da execução e como tal no da intimidade. Do outro lado, do lado de fora só o cheio se afirma, e é desse cheio, material, que é extrapolada a dimensão social da habitação privada. A casa torna-se assim não na nossa casa, mas a casa que queremos que nos represente perante a sociedade. Representação aparente e instantânea, que os tempos não dão para mais, o esforço esgota-se então na tentativa de definição dessa imagem, partindo de um campo referencial praticamente vazio porque a cultura tradicional se perdeu na proporção directa do desaparecimento do mundo rural, sem que tivesse sido substituída por uma sólida cultura académica, nomeadamente ao nível das humanidades e das artes, particularmente. Reduzido o campo referencial às últimas três décadas, já que antes dos anos 70 do século passado a letargia do pais pouco produziu para além do “Português Suave”, foi só após a revolução que se deu início à febre construtiva, iniciada pelos imigrante, desejosos de regresso, mais do que à pátria, à terra natal, na qual a “sua casa” se joga exclusivamente na questão da representação social, já que no limite ela não é sequer um objecto de habitar. É uma casa para o mês de férias, em que também para o seu interior é preciso levar a representação da ascensão social do seu proprietário, nos novos hábitos de vestir, de higiene, de comer... Para que tal produza efeito, é preciso que o outro penetre no interior da habitação, importando de resto hábitos da Europa do Norte onde a questão climática há muito impôs vida social no interior da casa, em contraponto à Europa do Sul, onde toda a sociabilidade se vive na praça. Repudiadas desde logo por um elite “bem pensante” as construções dos emigrantes são de forma simultânea publicamente difamadas e intimamente desejadas. Porque representam o corte com o passado. Porque passam a representar a imagem de modernidade, para quem (esmagadora maioria), não tem outra imagem a contrapor. Trinta anos após o seu aparecimento, a imagem evoluiu (pouco) e tornou-se a referência massificadora do panorama construído em Portugal. Da evolução podemos registar a colagem aos materiais tradicionais (nomeadamente a pedra), sem que no entanto se percebam as regras e as consequências de trabalhar com cada um dos materiais. Entre o continente e o conteúdo, todo o espaço é orientado para o primeiro, tornando o conteúdo o resultado do continente e não a sua razão de existir, estruturante. |