MODELOS DE DESENVOLVIMENTO
Ignorados pelo poder central, prisioneiro de um modelo em que a concentração populacional e a proximidade ao poder se reproduzem numa progressiva e maior concentração de população e poder, condenando as zonas periféricas à proporcional desertificação, compete-nos reflectir sobre que modelo de desenvolvimento pretendemos para o espaço que habitamos e de que forma o vamos marcar.
A MorphoPolis é um grupo de profissionais, ligados à área do projecto que participa por força do seu trabalho na construção do espaço urbano e na alteração do território, entendemos por isso questionarmo-nos sobre que modelo de desenvolvimento nos tem sido imposto, mas também sobre que modelo nós pretendemos construir.
Se estamos aqui por opção consciente, não pretendendo ser arautos da desgraça, acreditamos na atitude pedagógica de reflectirmos sobre as qualidades da cidade que nos foi legada, contribuindo para contrariar um espirito generalizado de descrença e fomentando a auto- estima de ser e pertencer a um lugar onde cada um se realiza antes de mais como pessoa no reconhecimento do outro.
A cidade sendo a mais espantosa criação do homem, comporta 5.000 anos da história humana, confundindo-se com a própria história, é acima de tudo um lugar de inclusão e raramente de exclusão. Inclusão de culturas, de homens, de sociedades, de diferenças … A cidade é um lugar de impurezas, mas em que a riqueza da mesma depende da sua capacidade de digerir todos esses elementos que a moldam e nalgum momento, sob algum olhar tornar-se coerente.
Comporta assim virtudes e defeitos em que uns e outros muitas vezes se confundem de acordo com o olhar que a observa.
Bragança apresenta ainda no inicio deste século qualidades notáveis ao nível dos relacionamentos interpessoais, modos de habitar, vivência urbana, identidade cultural e coesão social.
Habitamos um lugar em que a confiança e a disponibilidade do outro ainda existem nas relações de vizinhança e na família intergeracional. Se a progressiva globalização conduziu à perda de valores e referências, uma pequena comunidade poderá resistir a essa avalanche de perda de bom senso, apoiada em laços comunitários e familiares fortes.
A dimensão do espaço urbano permitiu até hoje a subsistência das relações tradicionais de solidariedade de vizinhança, proporcionando a integração do indivíduo no grupo. Não foram igualmente extintas as relações intergeracionais que permitem às nossas crianças o convívio, não apenas com os pais, mas genericamente com os avós e com uma família alargada de tios e primos. Se não é já a figura da família alargada vivendo sob o mesmo tecto temo-la ainda compartindo o espaço da mesma cidade.
Numa época em que a insegurança e violência urbanas irrompem com alarmante frequência no ecrã e nas páginas dos jornais, tem-se em Bragança a possibilidade de usufruir com confiança e tranquilidade o espaço urbano.
Tal circunstância poderá dever-se à interiorização do espaço urbano como pertença individual e colectiva e consequente estima, assim como pelo facto de, numa cidade onde teias de conhecimentos e reconhecimentos acompanham o indivíduo como reflexo anuente da sua identidade, o desacato e a insolência resultam em cunhos depreciativos e severos que o cidadão em geral prefere evitar.
Pretendendo evidenciar as qualidades de Bragança, será indispensável mencionar a persistência das actividades que revelam e produzem identidade, em antítese ao véu homogeneizador da globalização e da indiferença.
Sem dúvida, é-nos oferecida com frequência a oportunidade de assistirmos e participarmos em múltiplas actividades que pelo seu carácter periódico e simbólico poderão já ser entendidas como rituais fazedores de cultura e história.
Feiras, festas e romarias compassam o nosso dia a dia, associam rotinas pessoais e cadências comunitárias, conferindo deste modo significado ao tempo cujas consequências incidem na resistência convicta à uniformização e resultante desvalorização do acto de viver e habitar.
Algo há a dizer acerca da estrutura social e espacial da cidade. Bragança, dada a sua dimensão, estrutura urbana e organização interpessoal, permite a agregação, ou seja, a inclusão espacial e social de indivíduos e elementos urbanos.
A dispersão de equipamentos e instituições ao longo do tecido urbano permite a valorização das zonas em que se inserem originando assim a inexistência de assimetrias acentuadas na qualificação do espaço. Paralelamente, a dinâmica proporcionada ao nível da utilização dos espaços da cidade, leva à constituição de uma teia de lugares propícios ao encontro e ao intercâmbio de ideias e experiências, actividades essas ainda não minadas pela arrogância e indiferença que caracterizam muitas das sociedades ditas avançadas e tolerantes. Na verdade, em Bragança encontra-se ainda um ambiente de tolerância e o respeito ao próximo onde, existindo o direito à individualidade, nos enquadramos num contexto de grupo solidário.
Bragança surge em contra-corrente com a região como lugar de população maioritariamente jovem por força quer dos estudantes do ensino secundário, exercendo a sua atractibilidade sobre toda a região, quer dos estudantes do ensino superior, apresentando condições intrínsecas propícias.
Consagrado o direito à habitação (condigna) na Constituição, sem que esse direito se encontre totalmente conseguido, verificamos que possuímos, genericamente condições de habitabilidade que comparativamente com regiões ditas mais desenvolvidas não nos envergonham, quer seja pelas áreas disponíveis, condições de iluminação e ventilação e pela qualidade do ar que respiramos.
A estas qualidades acresce a facilidade de acesso à natureza e ao espaço rural, reforçando e mantendo vivas comunidades dispersas pelo território, reforçando identidades e grupos.
A cidade é um lugar de cruzamentos.
Nascidas frequentemente do cruzar de dois ou mais caminhos que se apropriam de um determinado território, as cidades são sempre lugares de múltiplos cruzamentos. De culturas, vivências, povos, mas acima de tudo de indivíduos.
Se numa grande cidade esses cruzamentos se encontram reduzidos ao cruzar de corpos em fuga para qualquer outro lugar não definido, numa pequena cidade podemos ainda viver o cruzamento do encontro, tornando dessa forma a cidade um lugar solidário.
Solidariedade também na morte. Numa sociedade massificada e vulgarizada, mas que paradoxalmente aspira à imortalidade, a sociedade actual lida genericamente mal com a morte. Quer as nossas pequenas comunidades, quer a comunidade da própria cidade são lugares onde a morte não é apenas um número mas o final de uma vida, que marca sempre uma parte significativa da comunidade. Habitamos um espaço onde a morte é ainda um sinal de dignidade.
Na crescente generalização de espaços urbanos impessoais e desumanizados onde relações familiares e de vizinhança se revelam de ténue ou inexistente intensidade, muitas são as pessoas que se questionam acerca da qualidade de vida nos seus derradeiros anos de existência, assim como da dignidade e acompanhamento no momento último da sua vida.
Em Bragança é nos possível viver a totalidade do ciclo de vida com dignidade, desde o acto de nascer ao acto de morrer, devido em grande parte aos laços de solidariedade e fraternidade exercidos pelos cidadãos. De facto, a não vergonha da morte, o seu respeito, aceitação e acompanhamento fazem parte da nossa cidade: cenário vivo de honras fúnebres prestadas a vidas que podemos nomear e recordar.
Entendemos que pertencer a uma comunidade é também reconhecer as suas virtudes, que devemos exaltar. Encontramo-nos num momento em que devemos reflectir sobre qual o modelo de desenvolvimento que pretendemos deixar àqueles que aqui estarão depois de nós:
O actual, que não sendo exclusivo de Portugal, assenta no sobrepovoamento das zonas litorais, condenando à desertificação as zonas interiores.
Um modelo semelhante, mas agora ao nível regional, assentando na concentração em núcleos regionais, abandonando o restante território.
Ou a aposta num modelo de ocupação do território homogéneo, condenando e penalizando as grandes concentrações populacionais de forma a reforçar a dispersão de cidades de média dimensão por todo o território, apoiadas por núcleos populacionais que se dispersam uniformemente por ele.
MorphoPolis, 28 de Outubro de 2002